segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Último Natal

Não posso fazer nada mais do que sorrir, entrevado entre alguns sonhos e muitos desejos, estas minhas pernas não mais me obedecem. Você disse ontem sobre a magia do natal, que belo! Nunca acreditei em Deus, porque acreditaria em Papai Noel e espírito natalino? Sempre acreditei era nas lendas sobre o Chester, seria ele mesmo uma ave normal ou uma cria de laboratório? Deveria te pedir desculpas por todos os presentes atrasados? Dia 25 é como todos os outros dias 25 de todos os meses de todos os anos, o que posso fazer? A morte não chega embrulhada, sabia? Ninguém te avisa que vai morrer com um sorriso no rosto, pelo menos, meus médicos deviam ter rido depois, cena memorável do paciente mais ranzinza recebendo a notícia do câncer. E eu nem joguei os maços de marlboro vermelho, sabia? Aumentei a quantidade, justo não? Já que vou morrer, quero ir pro inferno com o sabor deles nos lábios, os dentes amarelados, sorriso sacana prá quem mais estiver lá.
Obrigado pelo presente, mesmo assim, encaro com um presente de aniversário atrasado. Católicos engraçados, ficam se presenteando quando é aquele otário que nasceu no dia 25, bom, dia 25 é uma data inventada pelos mercadores, não é? O cara poderia ter nascido em qualquer dia do ano e vocês jamais saberiam, então, todos são obrigados a serem bonzinhos no dia 25 de dezembro. Porque não serem falsos assim todos os dias do ano hein? Eu adoraria ser tratado todos os dias com essa falsidade, ganhar presentes, ver que todos e até você, se importam comigo. Por isso o câncer, o único que me dava atenção era o marlboro.
Não preciso de abraço, filhinha, nem eu te dava carinho quando você precisava de um pai presente, não é justo que agora eu receba tudo aquilo que eu jamais lhe dediquei. Não que soe falso, qualquer pessoa vai ter algum carinho pelo seu pai, sendo ele quem for. Obrigado, pelo abraço, ultima vez que ganhei um, foi de uma prostituta, estava tão bêbada que precisou que eu segurasse para que não caísse na sarjeta.
Fica assim, se eu passar da véspera, eu juro que compro um presente prá você, pela internet. Também canto canções natalinas, finjo compaixão pelos demais doentes daqui e vou abraçar um por um, sorriso no rosto (não o sacana, tenho que treinar algum outro), e dizer, putz, e dizer com todo o sacrifício do mundo, e acredite, você não sabe o que é ter algo no seu peito te comendo e muito menos sabe os efeitos que a química pode fazer no seu corpo (não os da cocaína, quem dera!), um feliz natal. De mais a mais, fico com o meu papai noel, que é vermelho, tem 20 presentes dentro de uma caixinha e não quer sair da minha boca.

8 comentários:

  1. Por que não sermos falsos o resto do ano também?
    Ou, no mínimo admitir que somos?
    Gostei, me pergunto se essa semana haverá algum conto aqui falando bem do natal.

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  2. Hahaha, Hugo, tb me pergunto isso.


    Do texto, lindo e angustiante. Angustia boa, a que vc tb quer tragá-la nesse cigarro que não quer sair desse pulmão apodrecendo como a verdade que ele cospe para fora. E isso é uma vontade de viver tremenda. Enorme, katrina.

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  3. Nossa, que pesado. A falsidade do Natal também me enoja...

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  4. pesado e angustiante ... mas verdadeiro ... FATO

    bjux

    ;-)

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  5. Talvez 1/4 dos que vivem o Natal, o façam dessa maneira. Talvez mais.
    O Homem continua sendo o que é, mesmo nesta data.
    Existe muita 'construção' em torno dela.

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  6. Angustiante meeeeeesmo! Ainda bem que parei de fumar.

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  7. Pôxa..essa foi boa: Desce mais um? O meu é Desce Mais Uma! rsrsrs....

    Gostei do que encontrei por aqui!

    Abraço (vizinhos)...rs

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  8. "quando é aquele otário que nasceu no dia 25."

    Acham que sabem,
    com toda certeza.


    Blog bem lixo.

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