quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sempre atrasado

Queria ter-lhe dito antes da partida, mas se eu lhe falasse da partida seria como não querer partir. Preferi o silêncio escrito em letras amíudes, um silêncio que só você consegue ler. Não posso mais me atrasar, você sabe, estou sempre atrasado para a vida. Peguei o bilhete, me despedi de toda a culpa, peguei o que havia de melhor em mim sobre a cama e fui embora.

Por muito tempo eu perdi a vida pelas estações, a esperando. Passa tão rápido rente ao nosso corpo, que mal conseguimos entrar em um de seus vagões, então eu fico naquele desespero de, ter que pular entre o vão e a plataforma para poder alcançá-la. Não quero embarcar com Caronte, se é que estou sendo claro, não por enquanto, digo, ele sempre vai estar a nossa espera, porque adiantar as coisas? Você não quer embarcar nela, respeito sua decisão, mas eu preciso correr antes que mais uma vez, por todas as vezes, eu a perca. Ela não marca hora, a vida. Nunca espera por ninguém e nem vai esperar por você. E nós não esperamos pela mesma vida, no final, se o há.

No caminho, para a vida, comprei uma garrafa de vinho. Uma distração que se tornou em alguns goles uma maneira de me recordar do seu sabor. Talvez se pergunte qual o seja, mas ficarei calado. Prefiro que jamais saiba o sabor que a solidão tem. Me esbarrei com algumas pessoas, outros atrasados como eu e percebi que , quanto mais pressa temos de entrar na vida, mais atrasados chegamos por errar o caminho. É verdade, julgue me um cretino por não avisá-las, por vê-las pegando qualquer direção que não seja a da vida. Ou julgue-me um tolo, por achar que somente eu sei o caminho.

O que é certo para você prá mim há muito tempo já se tornou errado. Então deixei os cigarros dentro do maço, dei adeus ás nossas ruas, me levanto com o sol e me deito com a lua, o sexo já deixou de ser minha moeda de troca e espero muito mais do que o amor. Mantenho meu corpo são, minha mente livre, digo, não a prendo a pormenores, não sigo conselhos e livros de auto-ajuda. Deixei os escritores e os poetas falando sozinhos.

Mas a vida tem dessas coisas, um dia, ela inverte tudo, vai ver.

Um dia, compro um bilhete de volta à você.

5 comentários:

  1. Quase chorei e.. ah, *suspira*, belo e triste, belo e desesperador.

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  2. Gostei de uma coisa esdrúxula no texto. É claro que eu gostei do desespero misturado com resignação misturado com esperanças, mas o que eu mais gostei mesmo foi a vírgula nessa frase:No caminho, para a vida, comprei uma garrafa de vinho. Genial, sério, o númmero de leituras que isso nos dá.
    Obrigadinho, amor.

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