quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Desencanto a John Wayne

Foi numa dessas noites que eu estava de preto, se eu bem me lembro, descia a rampa que dava até a areia da praia, sentia o cheiro de mijo que emanava das paredes, chocando-se com o cheiro de maresia, não sei como eu não ficava tonto, tinha um ataque sinestésico, ou merda do tipo, mas continuava a andar por aí, as botas de couro começavam a sujar de areia suja e guimbas de cigarro e restos de comida e saliva e bosta e papel e plástico e tudo que havia de ruim, ainda bem que eu nunca ando descalço fora de casa, por uma vida menos ordinária deixei de fumar o derby de sempre e comprei um lucky strike vermelho mas que mesmo havia grudado nos lábios e imaginava a merda que seria arrancar, me dava preguiça, me deixava inerte, mas eu seguia caminhando, caminhando feito gentalha, caminhando feito doente, sentia meus pés rompendo, passei a mão pelo meu cinto.

Colt ainda estava lá, uma cobra querendo morder

Eu deveria voltar para o bar, deveria sair de toda essa areia, mas estou em busca daquele que toca piano, daquele coberto de tinta, daquele isolado, vivendo entre palmeiras, não deve ter palmeiras aqui, um náufrago de espírito, um ser humano que afundou, você já perdeu a humanidade hoje?, ele perguntava para qualquer um que passava, um caso de lucidez perdida, um caso de cabeça fodida, ele deveria perder a humanidade hoje, ele deveria me perguntar, ele não deveria deixar por menos, ele deveria me deixar com náuseas por causa daquele maldito papo cabeça

Você já perdeu a humanidade hoje?

Ele não larga o violão, não larga a pequena coleção de colares à venda por preços ridículos, está sempre tocando alguma nota, está sempre buscando a próxima melodia, fiz que não com a cabeça, ele sorriu, devia ser a primeira pessoa que falava com ele em meses, ele começou a rir, perguntou quando ia perder, não sei, eu disse, eu acho que eu preferia morrer antes porque assim que eu parasse de me importar tanto eu pararia de detestar tanto e eu pararia de cutir os pequenos prazeres, ele acompanhava, e eu acho que e estou predendo, continuei, você não tocava piano?, só violão agora, meu piano teve uma cirrose por não conseguir me acompanhar, descobri então o prazer do violão, criatura naturalmente bêbada, como aquelas piranhas que bebem contigo e roubam seus cigarros, você sabe como é, sei sim, dizem que você tinha as respostas, estou vendo que tem mesmo, ah, você sabe como é eu invento uma atrás de outra, acaba fazendo sentido uma hora, é deve fazer mesmo

Acho que já vou indo, é hora da minha perda gradual do dia

Sabe, eu poderia ter estourado a cabeça daquele filho da puta, mas ele sabe demais, ele é um verdadeiro profeta, ele é o sentido da vida, eu poderia estourar minha própria cabeça, mas talvez nem tudo tenha se perdido

Atirei no sol da manhã
Atirei no crepúsculo
A noite atirou em mim

14 comentários:

  1. Engraçado que ele não tenha atirado por ele saber demais, costuma acontecer o contrário.

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  2. legal essa idéia de faroest com praia!
    Pensei numa coisa agora (vale a pena dizer? sei lá...)
    nunca atiramos em quem sabe demais. Por isso sempre é bom sabermos alguma coisa. Podem (podemos) nos poupar numa hora de aperto.

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  3. Eduardo Campos Maciel22 de janeiro de 2010 13:38

    Achei o texto mto mal escrito. A história é boa, o enredo possui qualidade, mas n creio q o autor tenha algum talento para construção de textos. Gramaticalmente horrível, semantica fraca.

    "ah, você sabe como é eu invento uma atrás de outra, acaba fazendo sentido uma hora, é deve fazer mesmo".

    Nesse trecho, por mais que o autor tenha tentado recorrer à sua licença poética, nota-se o quanto a sua intimidade com a língua portuguesa se faz desprezível.

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  4. sua crítica é muito bem vinda, Eduardo, só que você se se esqueceu de um detalhe: eu não escrevo para mostrar como eu sou um especialista em língua portuguesa.

    em literatura, assim como nas outras artes, tudo se resume a proposta. não adianta você criticar que o Godard não entende nada de raccord ou eixo, porque está tudo na proposta. não adianta você falar que Pollock fazia o que fazia porque não sabia desenhar, porque está tudo na proposta.

    e se eu escrevo desse ou daquele jeito, creia, não é gratuito. se você quer literatura corretinha e bonitinha, sei lá, leia José de Alencar que é mais o seu gênero!

    p.s.: Semântica tem acento circunflexo

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  5. Fico feliz em perceber que nosso amiguete Eduardo Campos é o mais novo Olavo Bilac wannabe desta geração. Sempre aviso aos meus alunos, leite com gramática no café da manhã faz mal, causa indigestão literária.
    O artista, única e exclusivamente por sê-lo, é o único capaz de valorar a dimensão de suas obras, são as suas intenções que estão ali e em se sentindo realizado, em paz com suas diretrizes e propostas, a obra cumpre seu papel.
    Já leu Bukowski, amor? Será que ele se penalizava por não escrever como Nathaniel Hawthorne ou Hermann Melville? Acho que não.
    Arte é expressão do artista e via pela qual isso se concretiza é de responsabilidade do mesmo.
    Beijocas, querido. Se quiser umas aulas de coesão e coerência textual (seu comentário tá precisando) passa aqui em casa.

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  6. Resumindo, ele é invejoso e o ber é genial. E bora falar do texto do ber?

    A pior morte é a da noite, inevitalmente. Ainda mais depois de encontrar sábios.

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  7. medo do Eduardo!

    =X

    A noite é implacável, penso.

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  8. A noite sempre atira em mim que não sei de nada.
    Gosto desse faroeste.

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  9. Não acho que a intimidade dele com a língua portuguesa seja desprezível, muito pelo contrário, acho extremamente poética e estilizada. Talvez o seu conceito de "boa linguagem" seja um tanto limitado, até porque escrever bem não significa seguir exatamente o que está sendo dito nas gramáticas.

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  10. Eduardo Campos Maciel22 de janeiro de 2010 22:46

    Puxa! O Bukowski se remecheu todo na cova agora! Bukowski não escrevia com mediocridade...

    Qualquer um pode ser escritor agora. A questão não é a gramática, está longe de ser. A questão é saber escrever, ter a mínima capacidade de narrar os fatos sem bancar o Kafka aos 5 anos de idade.

    Bom saber que por aqui só são aceitos elogios nos comentários. Pois basta eu dizer que não se gosta do texto que ofensas são proclamadas pelos ditos escritore contra a minha pessoa.

    Não tenho nada contra a proposta do texto, até a elogiei. Disse apenas que não gostei da forma com que o texto foi escrito. Mas se preferem que não se critique, tudo bem.

    Hugo, vamos fazer assim. Você me dá aulas de coesão textual e eu te dou aula de bons modos.

    Mas não se esqueçam: da mesma forma que se propõem a escreverem e serem lidos, terão de lhe lidar com elogios e com as críticas (como se crítica fosse algo ruim).

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  11. Eduardo, você é literalmente um bêbado que acha que sabem de algo...

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  12. Eduardo, acho que eu vou ter que escrever de novo pra você entender: eu disse que a sua crítica era bem vinda.

    e como eu já disse, se eu quisesse escrever de um jeito tradicional, eu conseguiria escrever, na boa. eu já escrevi assim, muitas e muitas vezes. mas é um estilo que eu fui gradualmente abandonando em função de outra proposta, outra estética, outra estilização. se você não aceita o estilo que eu me sinto confortável em escrever, se acha que eu não tenho nada mais a ofrecer, o que eu posso dizer é: só lamento! muitas pessoas gostaram do que eu escrevo, eu gosto do que eu escrevo e ponto final.

    você exige respeito, mas você é o primeiro a me chamar de desprezível, de medíocre, de Kafka aos 5 anos, coisa e tal. já que você oferece aulas de bons modos, aceita umas aulas de gentileza?

    você pode argumentar: "ah, mas eu estava falando do seu texto". se for, paciência. você está criticando que algo deveria ser do jeito X, quando a intenção era ser do jeito Y. ou seja, você está criticando algo pelo que ele não é, nem teve a intenção de ser.

    eu gosto do jeito que eu escrevo. já recebi muitos elogios pelos meus textos. eu não sou uma pessoa burra, medíocre ou desprezível por isso, assim como quem gosta do que eu escrevo não tem baixo senso crítico, pouca inteligência ou gosta de qualquer coisa.

    sem querer ofender, mas você ao mesmo tempo que cobra respeito dos outros, é o primeiro a jogar uma pedra. somando isso a frases como "qualquer um pode ser escrito" - pensamento completamente elitista, pra falar a verdade - demonstra muita arrogância da sua parte.

    sim, qualquer um pode ser escritor, de Dostoiévski a Dan Brown, de Machado de Assis ao autor de Marley e Eu. desculpa, mas pensamento calvinista na arte é algo absurdo demais para a minha cabeça.

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  13. legal que logo depois de dizer que meu texto é "gramaticalmente horrível e semanticamente fraco", diz em seguida que "a questão não é a gramática".

    pelo jeito, vou ter que fazer faculdade de letras para descobrir qual é a questão tão misteriosa, rs.

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  14. Coloco um ponto final na discussão. "Remecheu" é com X, querido. Está claro aqui que para criticar sob a forma que você o fez, pelo menos isso você deveria saber escrever.

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