quinta-feira, 13 de maio de 2010

O coração de sábado à noite, dois

- Por que é que eu tive que vir junto, mesmo?
- Porque... porque... ora, sei lá porque, porra
- Ele não poderia escolher um lugar melhor?
- Nisso eu concordo. Boate pra quê, porra? Odeio esses lugares cheios de merda
- Não é isso, rabugento, ou melhor, quase isso, eu passei a adolescência inteira fugindo dessas botas de couro, cintos com detalhe em ouro e escovinhas luxuosas marchando para o banheiro para cheirar umas fileiras e correndo lá pra fora para vomitar na rua
- Ora, vá lá, não é de todo mal, vai que uma dessas piranhazinhas juvenis daqui não tenha um acesso existencialista e resolva escrever um livro sobre como a juventude é fútil?
- Bem que ele poderia ter marcado no boteco da esquina
- Nisso eu concordo

Duas almas velhas atraindo olhares curiosos e temerosos, mas não muitos, a maioria daqui, é claro, está com a mente muita atordoada para conseguir pensar qualquer coisa, para efeitos práticos é tipo dormir, se desligar do mundo, tomar balinhas, meter pó narina adentro, ouvir música eletrônica e esse lixo que o hip hop atual virou, pessoas batendo botas e sapatos e tênis com força no chão, fofocas sendo traçadas ao meio de gritos sussurrados, daqui a pouco irá rolar uma confusão do caralho, e as duas almas velhas já estão bebendo há tempo considerável e esperando o filho da puta

- Viu só, eu te trouxe porque você não poderia deixar de perder esse belo espetáculo, Fogueira das Vaidades; um bom filme de Brian De Palma
- Não vi esse, é com quem?
- Tom Hanks, Bruce Willis e Morgan Freeman
- Tem certeza que já não passou na televisão?
- ... tem a Melanie Griffith no auge da gostosura
- É sobre o quê?
- Ah, um ricaço de Wall Street indo pro Bronx por engano
- Sério? Nenhum suspensezinho? E a Nancy Allen?
- Você tá virando lésbica?
- Aposto como Vestida Para Matar é melhor e...

Acabamos não conseguindo continuar conversando porque o dj filho da puta disparou aquela música sobre uma garota beijar a outra, musiquinha antiquada do caralho, ela não acredita, mas procurando na internet dá pra encontrar vídeos sobre isso de 1910, estudando a história grega dá para encontrar dados sobre Lesbos, então tenho uma ligeira impressão que há um atraso de cem a cinco mil anos nessa porra de música

E chega o filho da puta com um chapeuzinho branco exatamente como ele falou que ele viria, até chego a rir de escárnio, porra, está parecendo um cafetão daqueles vídeoclipes que passam direto na televisão, ele nos leva para o reservado, ela cruza as pernas, eu me jogo de qualquer jeito, sinto o cano de metal cutucando minha coxa e quase congelo por dentro, ele faz menção de falar, eu não percebo, eu interrompo

- Aposto que pensaram que a gente entrou aqui para fazer uma suruba
- O quê?
- Não ligue, senhor, pode continuar
- Senhor? Sou mais jovem que você...
- É procedimento, mas de qualquer forma, não ligue para ele, acordou do lado esquerdo da cama hoje
- Entendo, e você seria
- A secretária dele, arrastada para cá vai saber pó que
- Freud explica. Agora desembucha, garoto.

Finalmente dá para ouvir alguma coisa, ouço lá fora o cara detonando outra música cheia de insinuações sexuais, ela ouve atentamente, eu ouço viajando os olhos por aí, por que proibiram de fumar nessas bostas, por que logo aqui, por que não poderia ser num bar, enquanto isso o cara detona um dramalhão poucas vezes visto mas que me faz coçar o saco, talvez se fosse um filme eu me emocionasse, não, fique tranqüilo, eu acho ela, eu dou um tapinha nas costas dele, sussurro um convite pra ela, mando acertar todos os detalhes, digo que não vai ser muito barato, mas garanto achar a piranha, eu sempre achei, vi que ele não fica muito confortável com o adjetivo, dou um cascudo discreto e amigável, espero lá fora, acendo um cigarro, ela chega pouco após

- Ele vai querer sim
- Maravilhoso, mas me pergunto porque ele quer encontrar a piranhazinha mas continua passando o rodo em metade da cidade...
- Metade da cidade?
- Pelo tanto que demorou, com certeza deve ter dado umas quatro ou cinco trepadas hoje
- E mesmo assim está desesperado
- Desesperado pra caralho, primeira vez que eu vi uma pele bronzeada ficar pálida
- Afinal, a elite anda por aí como dona do mundo até eles aparecerem, né
- Quem manda pegar dinheiro e não pagar imposto? Se fossem classe-média, não sumiriam, no máximo seriam abandonados na sarjeta com uma bala no meio do fígado
- Vamos beber?

Do que me lembro, passamos algumas horas lá antes de perder a consciência, mas aí sabe como é, numa piscadela, o mundo começou a tornar-se flash, o flash começou a tornar-se escuro, eu acho que caí no sono, acho que meu cérebro sofreu de uma elipse, mas este não era um direito somente reservado à dramaturgia, abro os olhos, ainda falta muito para o fim de semana, tenho que achar a piranha, este não é o meu quarto, eu não gosto muito de Kramer versus Kramer, ela idolatra, a Meryl Streep e o Dustin Hoffman não param de me encarar, ergo o dedo do meio para eles, VÃO SE FODER, sussurro, preciso de um café e um cigarro, torradas são para otários, ela vem com uma camisa do Vasco da Gama e de calcinha – hoje vai ter jogo, pelo jeito, ela me joga um maço de cigarros depois de pegar um, faz menção de ir para a cozinha, olha para mim

- Que merda, a gente trepou de novo?


(e continua)

Um comentário:

  1. AHuaHuahua, muito foda!
    Gosto desse seu jeito de escrever...
    oh yeah

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