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domingo, 16 de maio de 2010

Tecnologias e Imagens de Cavalos

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-O que você tá fazendo aí?
-Ah, já vou desligar, sei que estou atrapalhando, nada de mais, estou jogando.
-Ah, joguinhos, né? Eu não entendo nada dessas tecnologias novas. Minha neta passa horas jogando no computador. Ou escutando música. Se não está fazendo isso, está procurando cavalos, imagens de cavalos.
-Provavelmente ela faz isso tudo ao mesmo tempo.
-Ah, é possível fazer isso, né? Que incrível, é uma pena que eu tenha tanta dificuldade em aprender. Só não entendo essa fissura em computadores e tecnologias novas. Antigamente não precisávamos de nada disso. O máximo que tínhamos em casa eram um daqueles televisores antigos.
-Mas a tecnologia facilita nossa vida.
-Sim, mas também não precisava de tanto. Daqui a pouco até pra namorar vocês vão querer uma tecnologia nova.
-Não, aí também não! Vou preferir à moda antiga, haha.
-Tomara. Assim como meus filhos, espero que também não entrem nessa. Daqui a pouco vai surgir, sei lá, namorada robô. Aí não vão querer mais sair de casa, vão ficar transando o dia todo com o robô.
-Não creio que as coisas cheguem a esse ponto.
-Nunca se sabe. Ninguém imaginava que fosse possível mandar uma mensagem pro outro lado do mundo em questão de segundos, há 200 anos atrás. Queria muito conseguir fazer isso, pena que não tenha saco pra essas máquinas.
-Não consigo entender isso, vocês mais velhos não conseguem usar computadores. Não conseguem fazer nada que envolva novas tecnologias. Já a geração mais nova tem uma facilidade impressionante; também, eles nasceram fazendo isso. Tem que ver minha filha, ela também faz tudo ao mesmo tempo, fala com os amigos, escuta música, pesquisa para trabalhos da escola, faz downloads de discografias e filmografias inteiras. Nossa, essa geração é realmente esperta. Perto deles, vocês parecem não saber nada do que é atual.
-Nós não sabemos, é verdade. O que você tem que lembrar é que foi a nossa geração que inventou essas tecnologias. Se não fosse por nós, essas coisas não existiriam. Mas a minha pergunta é: será que a nova geração estará preparada para as tecnologias da geração seguinte? Assim como nós, acho que só na próxima reencarnação.

Enquanto conversavam, a neta do senhor procurava imagens de cavalos. Ela fazia isso para depois mostrá-las a seu avô, que adorava cavalos. Dois dias depois o avô se suicidou, para que renascesse mestre nas novas tecnologias ainda por vir. Tecnologias que a neta nunca poderia ter a capacidade de dominar.
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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Eu, pinguim

Eu estava com 40 anos e fodido. Sempre quis exercer uma atividade artística, por anos tentei pintar, escrever ou fazer musica; depois tentei só escrever... Por ser menos cansativo. Mas eu era muito ruim, sério... As coisas não tinham nexo, sentimento, a semântica cara... Era um problema.
A tentativa de me tornar escritor, aliado com a minha alergia ao trabalho... Tornou-me um completo vagabundo. Eu não conseguia escrever nada que pudesse ser lido e eu gostava de beber. Nisso eu era bom, as pessoas paravam para me ver beber, aí eu tentava vender um livro:
“Ola, você gosta de poesia?”
“Saí fora, seu chupa pica!”
Eu não tinha dinheiro, e a bebida mais barata era uma pinga a base de alho, trinta centavos o copo americano cheio! Consegui pagar três, um outro vagabundo pagou mais duas para mim.
Eu tinha pirado e me mijei.
Estava suado e tremendo. Cachaça maldita! Fui rastejando pela região do Anhangabaú, e entrei em uma caixa de papelão que estava na rua (era enorme! Deve ser de geladeira, ou coisa assim). Eu estava tentando respirar, mas eu estava suando e morrendo de sede. O sono apertou, senti um cachorro mordendo minha perna e alguém chutando a caixa e mandando eu sair. Eu não conseguia responder, e o sono estava incontrolável.
Acordei com uma vagina enorme me cuspindo. Não, foi uma cesariana. Eu estava nascendo da ferida de uma mulher que eu amava e isso me fazia chorar com toda raiva do mundo. Eu tinha virado um poeta!
Eu nunca pensei que a gente reencarnasse imediatamente, foi tudo num piscar de olhos. A minha vida ia ser melhor, eu estava louco para escrever... Eu tinha sentimento, eu transpirava isso do meu corpo pequeno e enrugado. Por falar em corpo, eu nasci com um pênis normal, mas meu saco era enorme e roxo. Essa não era a única deformidade, eu nasci sem pernas, meus pés estavam na cintura e meus braços eram curtos demais, eu parecia um pingüim sacudo. Quando eu percebi isso chorei por três dias sem parar.
Enquanto eu era um bebe foi tudo bem, aprendi a escrever com quatro anos, eu era um gênio! Mas quando eu comecei a andar, Jesus Cristo! Meu saco arrastando no chão áspero, me tornando eunuco passo a passo. Era pior quando eu tropeçava no saco, eu chutava meu próprio ovo e caia de cara no chão.
Aos quinze eu publiquei meu primeiro livro, e vendeu muito bem. Mas eu não saia da cama, meu saco era cheio de feridas e meus bagos estavam me matando.
Eu nunca consegui chegar à conclusão de qual coisa é pior: ser um fracassado sem talento que não consegue andar de tão bêbado ou ser um gênio pingüim que pisa no saco a cada passo que tenta dar.

Frase em Laranja da sexta feira:
"Se quiser trapar, vá à faculdade. Mas se quiser aprender alguma coisa, vá à biblioteca"
Frank Zappa