segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sempre

Eu tinha uma garota, Angélica me queria bem e a felicidade era tão explicita que chegava a ser obscena. Ela era adepta de Carlos Gardel, que dizia combinar com suas tatuagens, e de Chico Buarque, que sempre dava razão para ela nas discussões.

E nós brigávamos todos os dias, começava quase sempre por causa dela e terminava comigo dormindo no quintal ou ancorado em um balcão de bar. (A saideira depois da saideira, todas as noites nisso. O meu compromisso de ficar mal.)

Hoje eu não quero brigar, então trate de ficar calma, mulher! Angélica tem nosso coração castrado (sim, nosso, o meu e o dela, unidos em um coração maior) só longe de mim ela consegue ficar calma, mas ela me quer sempre perto.

Estamos perto, muito, muito perto. Encosto meu queixo entre seus lábios, estamos perto, perto demais para qualquer um, e eu sou jovem demais para negar.

Faz dois dias que chove sem parar. Angélica está na cama, doente, nua e branca. Não come nada a dois dias. (Aspirina, nimesulida, novalgina e engov... se você não melhorar eu emagreço com você).

Angélica fugiu para se acalmar, e eu vivo pregado no meu sofá em forma de cruz. Mas hoje não, hoje eu vou viver do cheiro do bar, a noite inteira. Então esconda esses pregos, pelo menos ate amanhã de manhã.